Trabalho não conforme começa antes do erro aparecer!
- Conformità

- 19 de fev.
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Tem um momento na rotina do laboratório que quase sempre passa despercebido!

O equipamento oscila durante o ensaio. O analista percebe, acompanha, faz um ajuste e o processo segue. O método previa uma condição específica, mas foi necessário adaptar um detalhe operacional. Um registro é feito depois, para não interromper o fluxo.
Nada explodiu.
O resultado foi emitido.
O cliente não reclamou.
E é justamente por isso que esse tipo de situação raramente é visto como trabalho não conforme.
Quando falamos em trabalho não conforme na ABNT NBR ISO/IEC 17025:2017, muitos ainda associam o tema a erro evidente, retrabalho ou resultado inválido. Mas a norma não trata apenas do erro consumado — ela trata do desvio em relação ao que foi planejado.
E desvio nem sempre significa falha grave. Significa que algo não ocorreu exatamente como definido em método, procedimento ou condição estabelecida.
A questão mais interessante não é se o desvio comprometeu o resultado.
É como o laboratório decide isso.
Quando não existe um critério claro de avaliação, a decisão acaba ficando no campo da percepção individual. Um analista pode entender que “não impacta”. Outro, diante da mesma situação, pode registrar e analisar. O sistema passa a depender da experiência de quem está executando — e não de um raciocínio estruturado.
É aqui que a conexão com gestão de riscos se torna relevante.
A 17025 incorporou o pensamento baseado em risco justamente para evitar que o laboratório atue apenas de forma reativa. Se um desvio ocorre e não é avaliado formalmente, o risco não é apenas técnico — é sistêmico. Ele pode afetar a rastreabilidade da decisão, a coerência entre equipes e, principalmente, a capacidade de demonstrar que a validade do resultado foi preservada.
Tratar trabalho não conforme não é “abrir ocorrência para tudo”. Também não é transformar qualquer variação em ação corretiva. É garantir que exista um raciocínio técnico minimamente padronizado para responder a três perguntas simples:
O que saiu do previsto?
Há possibilidade técnica de impacto?
Como essa decisão foi sustentada?
Quando esse processo é claro para a equipe, o requisito deixa de ser burocrático e passa a ser uma camada real de proteção do resultado.
Talvez o ponto mais delicado seja reconhecer que maturidade não é ausência de desvio. É consistência na forma de decidir diante dele.
E isso começa antes do erro aparecer.
Por Etiene Benini Mendes | Conformità


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